NATAL
Othelo Rosa
Na véspera, a
mamãe sorrindo lhe dissera
De leve, acariciando
suas louras tranças
Que ela
rezasse muito ao outro dia
Que era o da
festa de Jesus, o amigo das crianças
Dos tristes,
dos pobres e dos pequeninos
Que ele
chamara um dia a seus braços divinos
Para dar-lhes
a crença e dar-lhes o conforto
Dando pão ao faminto
e dando vida ao morto.
E a vida lhe
contara
Deste deus bendito
cheio de amor
e cheio de doçura
Que andara
nesse mundo
A socorrer o
aflito,
pregando aos
homens maus uma doutrina pura.
E toda lhe
contara a sugestiva história
deste estranho rabi
Que se chamou
Jesus
Que se cobriu de
glórias
Para morrer
depois pregado numa cruz
à ilharga de
um ladrão.
Dormiu
serenamente
Com um riso a florir
nos lábios descerrados
Até que a
madrugada, lúcida e silente,
Começou a
clarear os céus estrelejados.
Risonha, despertou.
Sua velha mãe
dormia a um canto da mansarda solitária e fria
O sono da
fadiga, inquieto e interrompido,
de quem vive o
seu dia a morejar sem termo
na conquista
do pão nem sempre recolhido
à taleiga do
pobre, além de pobre, enfermo.
E então,
cuidosa, a pequenina
Andou de canto
em canto em busca do presente
Que nesta
noite clara e linda
devera lhe trazer do céu resplandescente
Como sempre
esquecida, nada achou.
E então ela
voltou ao leito
Sentindo pesar
em torno de si
a solidão sem
par do seu sonho desfeito.
Quando a mãe
despertou,
a loura
criancinha murmurou sua crença
Comovente mas
resignada
É mau o teu
Jesus, mamãe,
pois se esqueceu
de mim.

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