Bem-vindos ao blog da Flavia Rios de Histórias

Fico feliz em receber sua visita. O rio aí da foto é o Taquari que banha minha cidade natal, e, inspiradas na vazão de suas águas, minhas memórias escoarão pelo fluxo da internet.

sábado, 27 de setembro de 2008

A chegada da surpresa


No meio da tarde, alegre e satisfeito, o pai chegou anunciando que chegaria em casa uma surpresa. Apesar da minha insistência em saber o que era, disse que esperasse a noite chegar, quando seria revelado a todos o presente para a família. Desisti de insistir e saí para brincar na casa das amigas. Quando o dia dava sinais de terminar, voltei correndo. Ao chegar, dirigi-me à peça onde, subindo alguns degraus, havia a talha de água. Sobre a mesa, uma enorme caixa de madeira que, após a chegada da energia elétrica, começou a tocar música.

Depois ouviu-se uma voz masculina. Um ponteiro móvel nos permitia ouvir as rádios que chegavam a Taquari. Nomes que logo se tornariam conhecidos: Farroupilha, Difusora e Gaúcha.

Naquela noite, eu ouvia os sons pela primeira vez, atordoada e cheia de interrogações diante do verdadeiro milagre que se apresentava a mim. Andava em volta da mesa, procurando entender o que via e ouvia. Indagava como vinha a música sem haver disco. O pai movia os ponteiros manejando um botão. Acabadas as pequenas manobras, pronto!

Depois "a caixa" passou para uma mesa mais baixa e em breve se incorporou a nossas vidas, com música, novelas e notícias. Nem mesmo sei se tinha a exata noção de que a humanidade estava ali, de algum modo, se modificando.

Durante a II Guerra



Aos acordes da música de fundo, o Repórter Esso anunciava os acontecimentos daquele dia com respeito ao desenrolar da II Guerra Mundial. Em Taquari, avanços e recuos, vitórias e derrotas dos aliados levavam todos à rua para comentários de júbilo ou de tristeza. No primeiro caso, a esses seguia-se uma grande festa nas esquinas, ponteadas de esperança e otimismo em relação a um desfecho favorável. Bradavam-se glórias aos que considerávamos os quatro heróis, Roosevelt, De Gaule, Stalin e Churchill. Confiávamos nas suas estratégias militares.

Como toda menina da época, fui para o colégio interno em outro município. Não havia Repórter Esso, nem periódicos, nenhuma notícia.

Era um mundo à parte.

Com a maturidade, consegui entender o sentimento daquelas pessoas, vítimas do clima de opressão. O colégio ficava em cidade de colonização alemã. Fotógrafos, valendo-se da situação, vendiam enormes quantidades de retratos de Getúlio Vargas aos moradores de Lajeado. Era a forma pela qual se defendiam quando abordados, uma maneira de expressar algum sentimento patriótico pelo Brasil. Sofriam assim uma violência tão bélica quanto o tiro de canhão.

Quando em 1945, foi selada a paz, terminei meus estudos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma homenagem


Tanto cimento é queimado, tanto metal fundido, tanta pedra quebrada para render, em regra, tributo a quem cujos valores são efêmeros. Ficam no esquecimento tantos outros de valores perenes. Esquece-se, até, de erigir monumento àquele que é eterno.

Aqui, pois, vai uma homenagem:
àquele que desafia o vento;
àquele que namora com o sol;
àquele que flerta com a lua;
àquele que brinca com as estrelas;
àquele que traz a vida;
àquele que marca o ritmo da música;
àquele que, movendo os ponteiros, regula a existência;
àquele que descansa no nosso sono;
àquele que marca o compasso da vida;
àquele que trova na chuva;
àquele que faz frio e faz quente;
àquele que não pára.

Enfim, rendo meus louvores àquele que consola: O TEMPO.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Os rios da minha vida



Nasci em Taquari, onde passa o rio de mesmo nome. Hoje, moramos em Porto Alegre, para onde viemos há cerca de trinta anos.

Há um ponto em que o rio Taquari encontra o Jacuí. Vindo de terras mais altas, o Taquari chega com mais força. Das alturas, vem para o encontro com o Jacuí, mais claro e mais calmo.

Na união dos dois, as cidades de São Jerônimo e Triunfo. Moramos na primeira. Foram os melhores tempos de nossas vidas. Eram os moradores pessoas alegres e criativas. O carnaval, mais importante evento cultural daquela época, era a síntese dessas qualidades dos jeronimenses. Admirávamos a criatividade e compartilhávamos a alegria.

Também eram festa os banhos de rio. Todo verão, íamos para a praia diariamente e dela voltávamos ao anoitecer.

Era necessário que os filhos prosseguissem seus estudos, o que naquela época só poderia acontecer na capital.

Foi a vez de vizinharmos com o rio/lago Guaíba. No início desta etapa, moramos em apartamento alugado. Persegui a vida inteira o sonho da casa própria, assim que tratei de colocar em prática a quimera de sempre.

Aqui um parêntese: feliz a tartaruga que já vem ao mundo com sua casinha.

Neste esforço conjunto da família, construímos a casa de Águas Claras, que, apesar do nome, não é um rio, mas um pequeno córrego. Lá agora vive um dos meus filhos.

Hoje, todos moramos em casas próprias, o que constitui a realização maior de minha vida.

domingo, 7 de setembro de 2008

Criança, eu na escola


O colégio ficava num prédio muito antigo, de estilo português, com dois pisos. Incompreensível foi sua derrubada tempos depois. Relíquia arquitetônica, foi vendido e posto abaixo.
Aos sete anos, lá estava eu sentada em uma classe de madeira. Ela comportava duas crianças, e havia um pequeno orifício onde se colocava o tinteiro de louça. Numa canaleta entalhada descansava a caneta.
Era o primeiro ano. Ruth, minha quase-irmã, me acompanhou. A sineta soou para início da aula, e a tia Filhinha, nossa professora, começou a lição do dia. Pouco depois, Ruth errou uma das perguntas, e eu achei muita graça. Sentida, quase chorando, ela foi para casa que ficava a meia quadra da escola. Nunca mais voltou comigo à aula. Era ainda muito criança, não tinha idade para começar o Elementar.
Uma outra coisa que me vem à memória é o modus operandi da descida para o recreio. Os guris sempre chegavam antes ao pátio, porque, montados no corrimão, desciam escorregando. Dona Genésia, a zeladora, muito enérgica, advertia-os sem grande êxito do perigo da manobra.
Teria muitas passagens a narrar da vida escolar daquela época. Essas foram imagens marcantes.
É um tempo que já vai longe, tempo do Colégio Elementar Pereira Coruja de Taquari, anos 30.