
No meio da tarde, alegre e satisfeito, o pai chegou anunciando que chegaria em casa uma surpresa. Apesar da minha insistência em saber o que era, disse que esperasse a noite chegar, quando seria revelado a todos o presente para a família. Desisti de insistir e saí para brincar na casa das amigas. Quando o dia dava sinais de terminar, voltei correndo. Ao chegar, dirigi-me à peça onde, subindo alguns degraus, havia a talha de água. Sobre a mesa, uma enorme caixa de madeira que, após a chegada da energia elétrica, começou a tocar música.
Depois ouviu-se uma voz masculina. Um ponteiro móvel nos permitia ouvir as rádios que chegavam a Taquari. Nomes que logo se tornariam conhecidos: Farroupilha, Difusora e Gaúcha.
Naquela noite, eu ouvia os sons pela primeira vez, atordoada e cheia de interrogações diante do verdadeiro milagre que se apresentava a mim. Andava em volta da mesa, procurando entender o que via e ouvia. Indagava como vinha a música sem haver disco. O pai movia os ponteiros manejando um botão. Acabadas as pequenas manobras, pronto!
Depois "a caixa" passou para uma mesa mais baixa e em breve se incorporou a nossas vidas, com música, novelas e notícias. Nem mesmo sei se tinha a exata noção de que a humanidade estava ali, de algum modo, se modificando.
Um comentário:
Dona Flávia, os seus textos estão maravilhosos! Deixei um presentinho para a senhora lá no meu blog, é só ir lá e pegar.
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