Bem-vindos ao blog da Flavia Rios de Histórias

Fico feliz em receber sua visita. O rio aí da foto é o Taquari que banha minha cidade natal, e, inspiradas na vazão de suas águas, minhas memórias escoarão pelo fluxo da internet.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Um história para não esquecer

Tia Sinhá ainda hoje é lembrada pelos que a conheceram e levam ao seu túmulo flores de gratidão. Costumava visitar os doentes em suas casas, levando-lhes tudo o que poderiam necessitar. Era uma santa.
Esta página pertence ao passado, bem passado... quase um século.
Em visita à Amarina, conhecida por tia Mila, falamos a respeito dessa nossa antepassada. Contou-me que na sua infância, estava doente de cama, com muita febre e nada a consolava. Tinha ficado órfã há poucos dias e sentia um mal sem fim. Tia Sinhá, em palavras de carinho e a mão sobre os cabelos, conversava com candura. Tia Mila então foi sentindo uma melhora confortadora que a foi levando à saúde total. E então, tia Mila me disse que tinha sido "vítima de generosidade extrema".

sábado, 29 de novembro de 2008

Um dia para não esquecer



Se me perguntassem de que dia não esqueci, de pronto diria: não lembro!
O dia para não esquecer é aquele de que se esquece.
É comum. Tem cheiro de café novo. Feijão no meio-dia. Sesta sem ronco. À tarde, água nas plantas. Ao arrebol, gorgeio de aves.
E, à noite, depois da novela... rivotril.

domingo, 2 de novembro de 2008

A música


Da Terra, a beleza da múscia ao Céu nos conduz.


Estou sentada no chão, brincando com as bonequinhas de louça quando ouço os primeiros acordes de Santiago de Estero que meu pai executa: era sua predileta. Em outras oportunidades ouvíamos outras canções, sempre tocadas de ouvido. Uma flauta de madeira preta permanecia dobrada em três partes dentro de uma gaveta. Minha mãe e a Bibi tocavam valsas lidas em partituras. Assim, cresci ouvindo música ao vivo e posso dizer que venho de uma família musical. Minha participação era cantar. A mãe dizia muitas vezes que aos dois anos eu cantava La Paloma.

Quando os filhos fomos deixando a casa querida por necessidades de trabalho, ficaram os pais. Restaram para mim durante muito, na memória, os vultos dos dois vagando pela casa... e as músicas.

A casa já não existe e então, nos meus ouvidos, até hoje reproduzo sons de que não esquecerei. Sou capaz de repeti-los, a todos, os tijolos que contornavam nossa existência. Sou capaz de reproduzi-los um a um.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Obrigada, Rosi !


A querida Rosi enviou o selo de premiado a este blog. Não é o máximo?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No jardim





Alguém já disse que o passarinho, posando no ramo verde, não se intimida. Tem asas.
Esse o meu sentimento ao visitar o jardim de casa. Contemplo o passado e, então, repouso no orquidário criado pelo pai. Vou em direção ao futuro e festejo a nova estação. De volta ao presente, penso: os espinhos da roseira não intimidam a flor que, esplendorosa, alarga os horizontes da natureza.
É a vida na sua plenitude.
Espinhos e rosas...

sábado, 27 de setembro de 2008

A chegada da surpresa


No meio da tarde, alegre e satisfeito, o pai chegou anunciando que chegaria em casa uma surpresa. Apesar da minha insistência em saber o que era, disse que esperasse a noite chegar, quando seria revelado a todos o presente para a família. Desisti de insistir e saí para brincar na casa das amigas. Quando o dia dava sinais de terminar, voltei correndo. Ao chegar, dirigi-me à peça onde, subindo alguns degraus, havia a talha de água. Sobre a mesa, uma enorme caixa de madeira que, após a chegada da energia elétrica, começou a tocar música.

Depois ouviu-se uma voz masculina. Um ponteiro móvel nos permitia ouvir as rádios que chegavam a Taquari. Nomes que logo se tornariam conhecidos: Farroupilha, Difusora e Gaúcha.

Naquela noite, eu ouvia os sons pela primeira vez, atordoada e cheia de interrogações diante do verdadeiro milagre que se apresentava a mim. Andava em volta da mesa, procurando entender o que via e ouvia. Indagava como vinha a música sem haver disco. O pai movia os ponteiros manejando um botão. Acabadas as pequenas manobras, pronto!

Depois "a caixa" passou para uma mesa mais baixa e em breve se incorporou a nossas vidas, com música, novelas e notícias. Nem mesmo sei se tinha a exata noção de que a humanidade estava ali, de algum modo, se modificando.

Durante a II Guerra



Aos acordes da música de fundo, o Repórter Esso anunciava os acontecimentos daquele dia com respeito ao desenrolar da II Guerra Mundial. Em Taquari, avanços e recuos, vitórias e derrotas dos aliados levavam todos à rua para comentários de júbilo ou de tristeza. No primeiro caso, a esses seguia-se uma grande festa nas esquinas, ponteadas de esperança e otimismo em relação a um desfecho favorável. Bradavam-se glórias aos que considerávamos os quatro heróis, Roosevelt, De Gaule, Stalin e Churchill. Confiávamos nas suas estratégias militares.

Como toda menina da época, fui para o colégio interno em outro município. Não havia Repórter Esso, nem periódicos, nenhuma notícia.

Era um mundo à parte.

Com a maturidade, consegui entender o sentimento daquelas pessoas, vítimas do clima de opressão. O colégio ficava em cidade de colonização alemã. Fotógrafos, valendo-se da situação, vendiam enormes quantidades de retratos de Getúlio Vargas aos moradores de Lajeado. Era a forma pela qual se defendiam quando abordados, uma maneira de expressar algum sentimento patriótico pelo Brasil. Sofriam assim uma violência tão bélica quanto o tiro de canhão.

Quando em 1945, foi selada a paz, terminei meus estudos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma homenagem


Tanto cimento é queimado, tanto metal fundido, tanta pedra quebrada para render, em regra, tributo a quem cujos valores são efêmeros. Ficam no esquecimento tantos outros de valores perenes. Esquece-se, até, de erigir monumento àquele que é eterno.

Aqui, pois, vai uma homenagem:
àquele que desafia o vento;
àquele que namora com o sol;
àquele que flerta com a lua;
àquele que brinca com as estrelas;
àquele que traz a vida;
àquele que marca o ritmo da música;
àquele que, movendo os ponteiros, regula a existência;
àquele que descansa no nosso sono;
àquele que marca o compasso da vida;
àquele que trova na chuva;
àquele que faz frio e faz quente;
àquele que não pára.

Enfim, rendo meus louvores àquele que consola: O TEMPO.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Os rios da minha vida



Nasci em Taquari, onde passa o rio de mesmo nome. Hoje, moramos em Porto Alegre, para onde viemos há cerca de trinta anos.

Há um ponto em que o rio Taquari encontra o Jacuí. Vindo de terras mais altas, o Taquari chega com mais força. Das alturas, vem para o encontro com o Jacuí, mais claro e mais calmo.

Na união dos dois, as cidades de São Jerônimo e Triunfo. Moramos na primeira. Foram os melhores tempos de nossas vidas. Eram os moradores pessoas alegres e criativas. O carnaval, mais importante evento cultural daquela época, era a síntese dessas qualidades dos jeronimenses. Admirávamos a criatividade e compartilhávamos a alegria.

Também eram festa os banhos de rio. Todo verão, íamos para a praia diariamente e dela voltávamos ao anoitecer.

Era necessário que os filhos prosseguissem seus estudos, o que naquela época só poderia acontecer na capital.

Foi a vez de vizinharmos com o rio/lago Guaíba. No início desta etapa, moramos em apartamento alugado. Persegui a vida inteira o sonho da casa própria, assim que tratei de colocar em prática a quimera de sempre.

Aqui um parêntese: feliz a tartaruga que já vem ao mundo com sua casinha.

Neste esforço conjunto da família, construímos a casa de Águas Claras, que, apesar do nome, não é um rio, mas um pequeno córrego. Lá agora vive um dos meus filhos.

Hoje, todos moramos em casas próprias, o que constitui a realização maior de minha vida.

domingo, 7 de setembro de 2008

Criança, eu na escola


O colégio ficava num prédio muito antigo, de estilo português, com dois pisos. Incompreensível foi sua derrubada tempos depois. Relíquia arquitetônica, foi vendido e posto abaixo.
Aos sete anos, lá estava eu sentada em uma classe de madeira. Ela comportava duas crianças, e havia um pequeno orifício onde se colocava o tinteiro de louça. Numa canaleta entalhada descansava a caneta.
Era o primeiro ano. Ruth, minha quase-irmã, me acompanhou. A sineta soou para início da aula, e a tia Filhinha, nossa professora, começou a lição do dia. Pouco depois, Ruth errou uma das perguntas, e eu achei muita graça. Sentida, quase chorando, ela foi para casa que ficava a meia quadra da escola. Nunca mais voltou comigo à aula. Era ainda muito criança, não tinha idade para começar o Elementar.
Uma outra coisa que me vem à memória é o modus operandi da descida para o recreio. Os guris sempre chegavam antes ao pátio, porque, montados no corrimão, desciam escorregando. Dona Genésia, a zeladora, muito enérgica, advertia-os sem grande êxito do perigo da manobra.
Teria muitas passagens a narrar da vida escolar daquela época. Essas foram imagens marcantes.
É um tempo que já vai longe, tempo do Colégio Elementar Pereira Coruja de Taquari, anos 30.

sábado, 16 de agosto de 2008

sábado, 9 de agosto de 2008

É doce viver no mar



A memória não alcança o tempo em que vi o mar pela primeira vez. Assim que a lembrança daquele dia vem por meio da lente do meu pai.
A foto e a memória de hoje, decorrido tanto tempo, trazem-me a lembrança de uma vastidão de águas verdes em movimentos ondulados e uma rede branca de espumas contornando suas bordas.
Quando a onda balança levemente, já está na hora de tornar ao seu caminho eterno, com sua beleza, cheiro e brisa.
Muitas vezes voltei ao mar que segue exercendo sua magia, mesmo longe. Sonho com esta natureza e, neste sonho, um dia passearei por lá em busca de "futuras reminiscências". É doce passear no mar.

sábado, 26 de julho de 2008

Um lugar muito distante


A casa de nossa infância, muito alta, além de possuir um sótão magnífico, era cheia de mistérios que desafiavam a imaginação. À esquerda, campos sem fim chegavam a nós banhados de sol. Obra de arte da natureza, tão longe, agora também no tempo. Mesmo assim nos possibilitavam sonhar com distâncias insondáveis.
Hoje já bastante distantes, temos a paisagem e o que mais havia dentro das paredes deste sótão.